Mood Moment

Analogia do dia.

Imagine que você carrega um grande saco de batatas nas costas. Você faz porque quer. Porque você sente que valha a pena. Porque em certos momentos, quando você pega algumas delas e as prepara fritas, cozidas, com molhos, souté... você acha tudo uma delícia. É de uma safra realmente muito boa. Você comeria essas batatas o resto da vida sem problemas!
Um peso de certa forma gostoso, já que lhe causa tanta satisfação saborear essas batatas vez em quando... mas ainda um peso, já que um saco de batatas é sempre pesado.

Aí um dia você resolve largar o saco pelo caminho. Você não quer mais carregar aquilo, a sensação apenas esporádica de saborear as batatas não lhe é mais interessante, visto que o peso do saco lhe causa dores a prazos bem mais longos. Você o solta e imediatamente volta a ter uma postura ereta diante da vida. É, as costas ainda doem muito, afinal tamanho saco de batatas há de marcar pra sempre sua coluna. Mas você está satisfeito por estar leve e disposto a experimentar novos sabores menos dolorosos.

Pensamentos...

Sabe quando vc finge estar sendo entrevistado em frente ao espelho do banheiro ou ganhando um Oscar de xampu no banho? Hoje resolvi falar um pouco de mim.
Um momento narcísico, talvez. Ou quem sabe uma auto-reflexão, que ao final poderá, inclusive, me dar algumas respostas que procuro.
23 anos recém completados. Muito? Pouco? Relativo. Mas bem vividos. Pelo menos ao olhar pra trás, consigo ver muita intensidade. Não, não vivi a 200/h, na verdade devo ter chegado a cento e poucos poucas vezes. Minhas loucuras sempre têm limite. Ah! Mas elas são muitas! E cada uma delas foi vivida com muita vontade. Tanto as boas, quanto as ruins. Tomo porres, falo bobagens, faço besteiras, danço viagens, digo verdades, pago micos, sofro dores. Morro de amores.
Sei que muitas das pessoas que me conhecem pouco têm uma impressão errada de mim. Na verdade, as que acham que me conhecem bem, não sabem nada. Só as que realmente me conhecem têm uma noção de quem eu sou.
Essa imagem distorcida é, em parte, culpa minha mesmo. Nunca fiz questão de transbordar simpatia de graça, sou apenas sincera e (nem sempre) educada. Nunca fiz questão de parecer santa, mas as bobagens homéricas que digo fazem as pessoas acharem coisas de mim que não são verdade, fazem elas esperarem de mim coisas que eu não faria. Confesso que essas incompreensões já me incomodaram, já atrapalharam relacionamentos... Hoje apenas me divirto com tudo isso.
Tenho em minha família os maiores amores da minha vida. Nem sempre me entenderam, nem sempre me apoiaram, muitas vezes encheram foi o saco! Mas nunca deixaram de estar ao meu lado. Tudo o tenho e sou devo a eles. Sem dúvida.
Meus amigos, desde os mais unha-e-carne até os que vejo de vez em qdo são minhas grandes paixões. Estar com eles, conversar, trocar idéias "cabeça" ou pura sacanagem, tomar uma cerveja, desabafar, dar e ouvir conselhos, sair pra curtir, me jogar no sofá de um deles pra assistir tv, fugir da aula pra fumar -passivamente- um cigarro... cada instante com eles eu tenho como uma dádiva. São esses pequenos momentos que fazem a minha vida valer a pena.
A escolha da minha profissão é uma grande incógnita. Tenho interesse por mil áreas, modestia a parte talento para a maioria delas, e apesar da Psicologia muitas vezes me parecer uma grande besteirada, não consigo largá-la. Ainda tenho muito o que aprender de teoria e prática, mas já pude constatar algumas vezes que talvez seja realmente essa minha vocação. Mas ainda não consigo me ver trabalhando com isso. É algo pra se trabalhar em terapia...
Amor? É... complicado. Já me apaixonei muitas vezes, já até perdi as contas. Costumo ter dedo podre com homem. Cada vez que me apaixono me jogo de cabeça de um trampolim, e sempre a quebro porque a piscina nunca está cheia o suficiente. Na verdade a cabeça é dura (e o coração é mole) e não aprende, nunca tive medo de amar. Mas só uma pessoa conseguiu, mesmo depois de tempos e de uma longa convivência, fazer meu coração bater mais rápido, me deixar sem graça, me fazer rir e chorar com a mesma facilidade. Dessa pessoa não consegui guardar mágoas ou alimentar raivas. Por essa pessoa eu engoli ciúmes só para vê-lo feliz, como ou com quem fosse. Dele eu abri mão, para não pedir mais do que ele podia me dar e nem viver de migalhas.
Quem me conhece um pouquinho que seja, sabe que eu tenho uma verdadeira patologia por gatos. É quase uma dependência mesmo. Amo. Adoro todos os bichos, curto de verdade a natureza, adoro programas naturebas, mas os gatos fazem parte da minha vida. Deve ser um lance karmico, vai saber. Minhas 5 filhas, além dos outros que já se foram e meus 7 afilhados são criaturas muito lindas. Cada um com uma personalidade instigante. Quem diz que gatos são traiçoeiros é porque nunca parou por 10 minutos pra observar suas atitudes. Interesseiros sim, falsos nunca! Um gato nunca se esfregará na perna de quem não gosta só pra ter comida. São carinhosos, divertidos, independentes... São realmente especiais.
Sou uma pessoa normal, com todas as psicopatologias possíveis. Tenho sonhos, desejos, medos, orgulhos, complexos, adoro carinho e ser amada. E em igual ou maior proporção -se é que essas coisas são mensuráveis- dou de volta. Sou compreensiva, adoro fazer as pessoas que gosto rirem, sou leal a quem amo (coisa que julgo mais importante que a fidelidade em si), sou impulsiva, compulsiva... Sou instável, me irrito fácil - principalmente na tpm-, mas tem vezes que absolutamente nada consegue me irritar. Minha "falta de excesso" de simpatia é conhecida como uma nuvem cinza que paira sobre minha cabeça. Adoro a noite e tudo o que ronda a boêmia. Ao mesmo tempo adoro o dia e todo o clima saudável que ele representa. Sou verdadeiramente um paradoxo. Na música e nas roupas não tenho um estilo definido. Gosto de tudo. Mas sempre varia com o dia, com o humor... Com o que quero ser naquele momento. Adoro ler, dançar, cantar, escrever e principalmente viver.
Quando me perguntam como me vejo no futuro, daqui a uns 10 anos... não sei responder. Quero encontrar um grande amor e com ele ter uma família... coisa de casa com um Labrador, dois filhos, um gato bem peludo no sofá, ter cafés-da-manhã como em comerciais de margarina, envelhecer junto, ter Natais com crianças brincando em volta da árvore querendo abrir os presentes antes da hora. Mas sabe? Família de filme americano é realmente uma grande utopia, e apesar de querer, nunca foi um objetivo de vida. Talvez pra não me frustrar, caso realmente não consiga ter um dia. Sonho viajar, conhecer vários lugares dentro e fora do Brasil. Pegar uma mochila e ir, simplesmente. O que na verdade eu espero, daqui a uns 10 anos e em diante, é ter me encontrado, como pessoa, mulher, profissional e estar feliz. Nunca completamente realizada, pra sempre ter o que buscar, mas feliz, independente do que a vida reservar pra mim.

8 ou 80

“Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito”

(Carta de Laudiceia)

Medo

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."

Platão

Casamento é pra sempre?

"Estão casados há muito tempo, mas o que é muito tempo? Talvez um tempo que ultrapassou a excitação do desconhecimento mútuo, a alegre descoberta de afinidades, o êxtase diante do corpo alheio: agora já possuem todas as informações, o dossiê completo um do outro, com seus defeitos e virtudes. Aparentemente, nada mais há a descobrir. Dão-se bem, conversam com facilidade, riem juntos ainda, mas nada os diferencia de um bom casal de amigos. O que talvez seja uma trégua mais que bem-vinda, se o objetivo for este, a paz conjugal, nenhum grilo falante sussurrando no ouvido esquerdo: “é isso mesmo que você quer pro resto da vida?”

Se, ao invés de sim, a resposta for não, não é isso que quero pro resto da vida, não é um amigo dormindo na mesma cama com sua tosse e seu hálito, com suas manias diárias e seu comportamento previsível, não, não é isto que quero pro resto da vida, um bom-dia num tom de voz mais que conhecido, um boa-noite num bocejo, todos os dias do calendário vividos como se cumprissem uma agenda pré-programada, tudo igual e tudo correto, sem calafrios e sem dúvidas, sem medo e sem assombros, sem qualquer sobressalto, se a resposta for não, não é isso que quero, então por que continuar? Segundo Fabrício Carpinejar, grande poeta, a vida não é continuar, a vida é começar.

(...)

(Martha Medeiros)

prazer

"O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer.
A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.
Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte.
Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo.
E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida.
Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido.
Pois o prazer não é de se brincar com ele.
Ele é nós."

(Clarice Lispector)

eu

eu triste sou calada
eu brava sou estúpida
eu lúcida sou chata
eu gata sou esperta
eu cega sou vidente
eu carente sou insana
eu malandra sou fresca
eu seca sou vazia
eu fria sou distante
eu quente sou oleosa
eu prosa sou tantas
eu santa sou gelada
eu salgada sou crua
eu pura sou tentada
eu bela sou fútil
eu útil sou boa
eu à toa sou tua....

(Martha Medeiros)

eu e você

Eu e você frente a frente…
É o medo e o desejo;
É desconfiança e a esperança;
É o grito e o silêncio;
É o gelo derretendo no fogo…
Eu e você frente a frente
É ter sempre que me confrontar;
Encarar meus erros e as minhas razões…
As minhas verdades e as minhas ilusões;
Meu poder e a minha impotência;
A minha liberdade e os meus limites…
Quando eu estou na sua frente,
Eu sinto toda a minha dor,
Mas só na sua frente eu posso sentir todo o meu amor

(Luiz Antonio Gasparetto)

Para que serve uma relação?

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

"Uma relação serve para ambos serem felizes"

(Drauzio Varela)

“Mistérios Femininos”

Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama.
Reparem, estou dizendo, depois que ama.
Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor.
Disto se pode falar também, e a literatura a partir do romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas imular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.
Mas, quando digo ”depois que ama“, refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias.
Fica macia que nem gata aos pés do dono.
Mais que gata, uma pantera doce e íntima.
Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga.
A vida não transcorre mais a contrapelo.
Desliza.
Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento.
Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne.
É tempo do adágio, de calma e fruição.
Neste período, aliás, o tempo pára.
Em estado de graça ela se desinteressa do calendário.
O cotidiano já não a oprime.
As tarefas da casa, pesadas em outras ocasiões, tornam-se leves,
os compromissos mais enjoados podem ser acertados, as tragédias dos jornais já não lhe dizem tanto respeito.
O trabalho do escritório torna-se leve, pode ser feito quase cantando.
Algumas desenvolvem uma súbita necessidade de te undo com pratos sutilíssimos e saborosos.
O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e glorificada pervaga pela casa.
O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta.
Em geral, nunca se dá conta.
Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor,
e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.
Na verdade, ela sobre paira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se
em torno de si esse balé de ternura.
Deveria o homem avisar ao escritório:hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo.
E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas, os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficarem ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar.
Já vi algumas mulheres assim. Era capaz de pressentir a 115m que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram.
Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma.
Que não esteja distraído o parceiro ou parceira.
Ela tem mesmo um perfume diverso das demais.
É um cio diferente.
É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, tranqüila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente.
As outras mulheres percebem isto e a invejam.

(Affonso Romano Sant´ana)