Que desapego é esse?

Em tempos de relacionamentos fast-food (pediu-comeu-cabou), outras relações parecem ser igualmente descartáveis.
Você já teve um amigo de quatro patas? Ou mesmo de asas, casco etc... Um amigo bicho! Aquele que te oferece amor incondicional, mesmo que você seja feio, pobre ou esteja suado e fedendo...
Se você tem ou já teve um desse, sabe do que estou falando... Na alegria e na tristeza, seu companheiro está sempre lá.
Mas ai de repente acontece alguma coisa na sua vida, uma mudança radical: um casamento, um filho, até de residência... Ou o animal está velho, doente, ou tem um temperamento difícil e não te serve mais. E você se livra dele. Simplesmente.
A novidade não comporta mais aquele que sempre esteve lá por você. Assim, do nada.

E eu só me pergunto uma coisa: como pode?

Talvez o meu jeito de relacionamento com animais não seja o mais saudável, tudo bem. Trato-os como filhos, alguns dormem comigo. Gosto mais deles do que de muita gente da minha família. Vá lá! Talvez eu seja errada mesmo.
Mas ninguém me convence de que abandonar um bicho ao relento, dá-lo a um conhecido ou qualquer outra atitude de desapego seja o certo. Não adianta!

Animais também têm sentimentos. Não como nós, mas sentem dor, sentem medo, rejeição, depressão até. Assim como também sentem de longe em quem podem confiar, em quem podem amar. Apesar de muitas vezes se enganarem, já que essas coisas teimam em acontecer.

Acredito que pessoas que façam isso também sejam capazes de esquecerem seus pais e avós em asilos, colocarem seus filhos em internatos, trocarem de namorado(a)/esposo(a) como quem troca de roupa... Assim que eles não estiverem mais lhe dando um retorno satisfatório.
Retorno não sei de quê, já que uma pessoa com toda essa indiferença não tem absolutamente nada a oferecer. E jamais estarão satisfeitas em qualquer relação que exija troca.

Egoístas.
Hoje foi tão difícil acordar: Friozinho, roupa de cama limpa, meus gatos em volta, sono absurdo... Tudo tão bom!
Ah! Eu não queria mesmo levantar.
Por um segundo pensei em inventar uma desculpa no trabalho. Há dias me sinto meio persona non grata no escritório. Sei (espero) que é só impressão, mas é o que sinto. O fim de ano faz o movimento de vendas cair e minha introspecção aumentar. Somado ao estranho cansaço das últimas semanas, eles formam um ciclo que culmina em um sentimento de inutilidade nunca dantes vivido aqui.
Depois de algumas tentativas frustradas, sento-me novamente na cama. Me dou conta de que hoje não é quinta-feira (parecia muito), o que me desanima mais um tanto. Olho pros meus gatos. A não-usual carinha de receptividade de alguns me deixa com mais vontade de voltar a dormir e aproveitar o raro bom-humor que o frio lhes proporciona. Respiro fundo, luto contra o relógio, tomo meu remédio e vou pra debaixo do chuveiro.
Minha sobrinha chora no quarto ao lado. Enfrentei chuva e trânsito em pé no ônibus ontem só pensando no seu sorriso vazio ao me ver. Saudade que não cabe. Cheguei tarde demais, seu sono ganhou a luta da última noite. Hoje o meu é quem ganha. Saio de casa atrasada, sem tempo de lhe dar um beijo.
Começam os movimentos robóticos, aqueles não pensados, simplesmente executados: corrida atrás do M93, desespero por um lugar vago, óculos escuros e o cochilo que me permitirá ficar em (quase) alerta o resto do dia. Empurra-empurra pra saltar, abuso pra atravessar a Fco Bicalho e a longa espera pelo segundo ônibus. O relógio não pára. Chego meia hora atrasada. Torço pra não ter ninguém: um olhar de reprovação não melhoraria nada as últimas sensações.

Penso nas contas a serem pagas. Nos planos feitos. Vai dar. Eu sei que vai. Apertado, mas vai. Contudo a preocupação não cala e os números na cabeça não sossegarão até estar tudo quitado.
Penso nos ex's-qualquer-coisa que resolveram resurgir das cinzas, cada um ao seu modo. Me fazem indagar sobre suas reais intenções. Nenhuma que valha a pena, certamente.
Penso nos amigos que esperam de mim uma postura sempre disposta e serviçal aos seus desejos: de porres, de relatório de conversas com seus ex's, de noitadas... E que se não são prontamente atendidos, concluem simplesmente que não estou à altura de suas companhias e somem.
Penso nos possíveis candidatos a serem, em dois ou três meses, os novos erros da minha vida. Não há tesão-pós-tpm que me me faça aturar mais boçalidade. Não mais.

É, tá valendo mais me resolver sozinha mesmo. Em todos os sentidos.


Silêncio sepulcral percorre as horas dentro desse retângulo de concreto em Vila Isabel. Em meu mundinho leio online Chico Buarque e desejo estar sobre minha cama com "Leite Derramado" entre as mãos.

Fome. Vou almoçar.

Prezada Mulherzinha

Prezada Mulherzinha,

Se existe alguém que pode falar o que vou falar para você, sou eu. Então, por favor, tenha a humildade de admitir que sei o que estou falando. Pois o que eu te direi é duro, mas poderá te fazer um bem enorme.

Chega. Chega de se comportar assim. Como se estivesse lutando pelo posto de rainha da bateria. De Miss Maravilha do Mundo. Basta de ataques, dessa competitividade suburbana eu sou a melhor, eu sou a mais alta, eu sou a mais gostosa do pedaço. Ninguém tá ligando a mínima se você corre 10 quilômetros ou se aplicou Botox nessa sua testa sem expressão. Ou se você é assim porque ainda não passa de uma menininha que quer ser mais perfeita do que a mãe, conquistar o amor do pai e ser a primeira da classe. Esse teu afã psicopata de vencer todas as paradas só te deixa ridícula. E me faz querer usar um termo que odeio: coisa de mulherzinha. Mulherzinha é que tem essa mania de estar sempre desconfiada das amigas, porque todas teriam inveja do seu corpão e do seu cabelão estilo falso-loiro-natural-cinco-tons. Lamento informar, querida, que ninguém sente inveja de você. Por isso, chega de dizer por aí que, para não atrair olho grande, é bom ficar de bico fechado sobre a tal possível promoção que você terá no trabalho. Relaxa, ninguém está a fim de ser você. Tente, portanto, ser você com mais leveza. E lembre-se: esse negócio de dizer que não se pode confiar em mulheres só comprova que você é uma pessoa maliciosa. Sendo que isso está longe de ser porque você é fêmea.

Quando vejo você tagarelando sobre seus feitos sexuais, sinto-me num filme ruim sobre ginasianas americanas. Todas fanhas e excitadas. Chega, tá? De azucrinar os outros com essa sua boca-genital lambuzada de gloss, cuspindo baixos-clichês, simulando uma modernidade que você não tem. Nunca mais caia no ridículo de fazer "sexo casual" com nenhum tipo de homem, mais velho ou mais novo, casado ou solteiro, porque todo mundo já sabe que você finge tudo. Que goza, que não se sente fácil, que não liga quando os caras não telefonam no dia seguinte. Seja honesta uma vez na vida: confesse. Que você não é nada tão wild quanto se vende. Que não sabe falar tão bem inglês assim. Que fez escova progressiva. Que tem dermatite. E enfim você terá alguma paz, pois se reconhece humana, e não a barbie boba que você procura ser. Acredite: idiotice só te faz charmosa para os cafajestes. Se continuar assim, nunca vai aparecer aquele cara bacana que você gostaria que aparecesse; para lutar por você, até te conquistar, e destruir essa tua linda silhueta com uma gestação de 15 quilos.

É triste, amiga Mulherzinha, mas você terá que abrir mão da máscara de rímel que cobre a sua verdade.
Tantas loucuras vividas nos últimos tempos...
Descobertas inconfessáveis e lamentos infazíveis.

Após um turbilhão de sentimentos e pensamentos, meu horóscopo mandou eu ficar quieta e jogar fora o que não me serve mais.
Quase naturalmente foi o que fiz. Me afastei de toda a loucura que cerca minha vida e a dos que me cercam e me afoguei em mim mesma.

Pisei no fundo e dei impulso, cheguei a superfície ávida por ar. Por vida.

Quase me jogo de volta à morte. Algumas vezes. Num mesmo dia.
(Se matar é um hábito difícil de se abandonar).

Num raro momento de controle (que há de ser trabalhado dia-a-dia), me mantive firme e rapidamente voltei a consciência.
Ou ela que voltou a mim?
(Bom, não importa, desde que estejamos juntas).


- Não, ninguém vai mais me ter como tinhas.
Não sou prozac, nem livro de recordações. Não sou o que foi deixado pra trás e (sabe Deus porquê) foi lembrado pra ser buscado.

Meu mal sempre foi querer demais.
Mas agora não mais.