Há mais ou menos 1 ano e meio perdi minha Cocole pra uma doença que novamente me perturbaria este ano, a lipidose hepática. Tive que aprender a conviver com a culpa de não ter sido mais rápida, mais alerta a saúde da minha gata que se definhava. Quando dei por mim já era tarde, o tratamento não surtiu efeito e perdi a gata mais doce que já tive.
Este ano quando a doença voltou a rondar meus filhos, logo percebi e fiquei de olho na falta de apetite da minha Lolinha. Dias internada, comida forçada de hora em hora. Remédios. Muitos vômitos. A apatia da minha gata mais louca estava me fazendo perder as esperanças. Felizmente depois de muito rezar ela foi lentamente se recuperando e hoje, além dos surtos quase diários de correr e pular nos móveis derrubando tudo, é a que mais perturba pra comer fora de hora.
Na última terça perdi outro docinho... Há algumas semanas envolvida na castração dos mais babies, que já não estavam tão babies assim, na primeira leva já tomei um susto: dos quatro que levei, o mais miudinho, meu Pequeno Príncipe, demorou muito pra voltar da anestesia. Felizmente ele acordou e está bem. Mas não tive a mesma sorte com a última leva, de duas meninas. Leila - batizada somente nesse dia inspirada na Miss Universo - acordou e está bem, mas minha Kiara...
Único filhote que sobreviveu de uma pequena ninhada de uma das minhas gatas mais velhas, já desdentada, cega, e com, possivelmente, rinotraqueíte. Prometi o mundo a ela. Toda pretinha e peludinha, prometi que assim que conseguisse vacinar todos os outros e castrá-la, ela teria livre acesso dentro de casa. Promessa que se estende por meses, já que fiquei desempregada e o objetivo mais complicado. Vivendo estes nove meses dentro do gatil, sem minha presença constante, foi ficando arisca, desconfiada, perdeu muito pelo por uma possível contaminação de fungo... Mas era só insistir nos carinhos que ela ia aos poucos se entregando. Estava conseguindo isso quando finalmente chegou sua hora de "dar o passeio que não ia fazer mal nenhum". Lembro do seu olhar assustado enquanto a colocava dentro da caixa junto a Leila, da sua carinha curiosa olhando pelos buracos da caixa pra ver o que tinha em volta e também lá no posto de esterilização, enroscada com a Leila. Foi a primeira que tirei da caixa pra tomar a injeção de sedativo. Totalmente apavorada. "Calma, linda. Tá tudo bem, logo você vai pra casa." A veterinária ainda falou:
- Você ta ciente dos riscos da cirurgia, né?
- Tô. Não gosto nem um pouco, mas estou.
Coloquei-a dentro da gaiola e quando voltei com a Leila também com a injeção tomada, Kiara já tava caidinha sedada. Ainda coloquei ela de lado pra melhor conforta-la e fui esperar do lado de fora.
Espera longa demais. Todos os outros donos foram chamados antes, e sairam com seus animais dopadinhos, mas vivos.
Me chamaram e me entregaram a Leila acordando. Foi pra caixa.
- E a outra?
- Que outra?
- Uma outra pretinha também, peludinha, já acordou?
- Ah, a gatinha que não foi operada, já te chamo.
Estranho. Não foi operada???
Quando me chamaram, lá pra dentro, o veterinário, antes que eu pudesse avistar minha gata, já falou:
- Você que é a proprietária da gatinha? Infelizmente ela faleceu.
Como assim????? Minha gata estava lá, com o corpo deitado...
- O que aconteceu?
- Não sei, foi com o pré-anestesico. A mesma coisa que demos a ela, demos a outra, mas ela não aguentou.
Pensei logo na maldita rinotraqueíte da mãe dela. Mesmo tendo o vírus, ela não tinha desenvolvido a doença ainda. Imunidade baixa talvez, o que fez o pêlo cair, mas... Sedação. Ela nem chegou a ser aberta. Estava com a barriga intacta. Coração?
...
Lágrimas escorriam, escorreram e escorrem enquanto escrevo.
Peguei ela nos braços e sai como um foguete de lá. Nada mais podia ser feito. Qualquer explicação seria em vão. Minha gata estava morta.
Cheguei em casa e enquanto cuidava da Leila, chorando, ainda tive que ouvir impropérios do meu pai, que não sabe lidar com minhas lágrimas, minha dor direcionada a algum animal. Coisas que não quero nem repetir. E ainda brigou pelo fato de não querer jogar minha bichinha no lixo, alegando se tratar só de um corpo e eu nem era tão ligada a ela. Não?
Pedi desculpa a ela por não conseguido cumprir a tempo a promessa, pedi desculpa por tê-la tirado do seu cantinho para a morte. Me despedi fazendo carinho no seu corpinho já gelando e a coloquei numa caixa.
No dia seguinte a levei pra ser cremada na clínica veterinária Jorge Vaitsman, na Mangueira, onde foi também cremada a Nicole. Enquando pagava a taxa de cremação uma senhora esperava na fila chorando pelo seu pastor de 8 anos que também havia morrido. Entender o que se passava com ela fez toda a dor até então controlada ser explodida em mais lágrimas.
Racionalmente, como todo mundo falou, não tive culpa, afinal como poderia adivinhar que ela não suportaria?
Mas me dói lembrar dos seus olhinhos brilhantes, cheios de vida naquela caixa... Me dói não ter conseguido dar a vida que lhe prometi, com mais conforto, carinho e cuidados, como ela merecia.
Agora me resta acreditar que existe um céu de animais, e que ela está lá agora, junto com a Nicole, a Shanninha, o Niki, o Brown, o Black... e que ela está sem medo, sem dor, brincando feliz num jardim colorido, correndo atrás de borboletas.
E eu, mais uma vez, tenho que aprender a lidar com a culpa e a impotência diante da morte.
Fique em paz minha pequena schifosa
![]() |
| dez 2010 - set 2011 |

Nenhum comentário:
Postar um comentário