A
lembrança mais antiga que tenho de desejar a maternidade sou eu pequena, não
sei a idade, 5, 6 anos talvez... no carro, de vidros fechados vendo crianças do
meu tamanho pedindo dinheiro do lado de fora. Aquilo não fazia sentido pra mim,
e eu desejava que meus pais pudessem tirar ao menos uma daquela condição e
cuidar. Isso se reverberou em mim em um desejo latente de um dia fazer isso.
Até que eu entendesse que isto era adoção demorou um pouco, mas permanece até
hoje o desejo de adotar uma criança.
Engravidar,
pelo contrário, nunca foi um sonho. Na verdade, sempre foi um medo. A ideia de
ser uma fabrica de pessoa e ela ter que sair de mim sempre me assustou. O que
me fez sempre ter muito cuidado com métodos contraceptivos desde o inicio da
vida sexual. Alguns deslizes foram o suficiente pra me deixar neurótica e
apavorada.
Até o
dia que conheci meu marido. Um match tão bem dado que foi desmontando meus
muros de proteção tijolo por tijolo... perdi o medo de me envolver e amar de
novo... e perdi o medo de ter uma família – para além dos meus bichos. Ter um
filho com a carinha dele passou a ser um sonho que superava qualquer medo de
gravidez e parto.
Três
anos juntos e a vontade crescia a ponto de não planejarmos, visto que na
pindaíba em que vivemos esperar o momento certo é adiar pra sabe-se lá quando,
mas começamos a relaxar um pouco. “Bom, vamos deixar assim, se for pra ser,
será, senão, tudo bem também”. Mas não foi.
Então
fui buscar o resultado do preventivo que havia feito 4 meses antes, por rotina,
e que não buscara antes em parte por falta de tempo e em parte por desleixo.
Lembro da médica falando que estava tudo bem, sem qualquer aparência de
problema. Relaxei. Na consulta do retorno ela abriu o resultado do preventivo
na minha frente. Não falou nada e me mandou fazer um exame o mais breve
possível, “porque tinha dado uma alteraçãozinha e precisava confirmar”. Havia poucos
dias que retornara das férias e fui direto pro trabalho, com uma pulga atrás da
orelha. Lá já cheguei na correria e parei somente no almoço, quando abri o
exame e dei de cara com ele, o carcinoma. “Adenocarcinoma in-situ”. Não
precisava de Google pra traduzir, mas fui confirmar: eu estava com câncer.
Não vi
mais nada na minha frente, só um grande abismo. No trabalho, cercada por um
ambiente pouco amigável, a única pessoa em quem confiava não estava. Avisei meu
marido que não acreditou de primeira, e no trabalho dele também perdeu o chão.
Dali em diante começou uma corrida inútil contra o tempo. Marquei o tal exame
pro dia seguinte e avisar a equipe que eu me ausentaria de novo, já faltando um
membro que tinha ido viajar, eu tendo acabado de retornar de férias que se
emendou com uma semana de licença médica por conta de uma cirurgia plástica que
havia feito, foi tenso. Já estavam querendo minha cabeça porque sabiam que eu
não estava mais satisfeita, mas até que decidam sua vida, esperam que você
continue dançando conforme a música. Só que a música pra mim tinha mudado
completamente o ritmo.
No dia
do exame ainda fui trabalhar na parte da manhã. Com uma cara desolada fui
“convidada” a contar o que estava acontecendo pra minha superior, já que eu não
parecia feliz. No trabalho eu não estava mesmo satisfeita, foram inúmeras
incertezas nos últimos meses que me fizeram procurar novas oportunidades que
condissessem com o que eu poderia oferecer e deveria receber. Mas ali, naquele
momento, o meu problema era o câncer recém-descoberto. Diante dele recebi garantia
de total apoio para o que eu precisasse. Mas poucas horas depois surgiu uma
gestora do RH pra conversar comigo e entender porque eu estava insatisfeita e
se era minha intenção continuar trabalhando lá e se eu queria a ajuda dela para
me adaptar. O misto de sentimentos foi intenso: fiquei incrédula com o
questionamento. Com a insensibilidade do momento. Eu não tinha cabeça nenhuma
pra pensar o que eu queria. Eu só queria ir fazer meu exame pra dar algum
sentido de novo pra minha vida. Ela me desejou boa sorte e disse que voltaria
na semana seguinte pra conversamos com mais calma.
Fui
fazer meu exame, colposcopia com biópsia. Pequenos pedaços do colo do útero são
tirados sem anestesia. 20 dias úteis para o resultado, que se alongaram por ter
um carnaval no meio. Dias intermináveis. No retorno do carnaval recebi minha
carta de aviso prévio. Ninguém retornou para conversar comigo. Vendo as
principais pessoas que queriam minha cabeça fazendo merda atrás de merda eu
fiquei desempregada sem a chance nem de me despedir de quem gostava de mim.
Quando o resultado do exame ficou pronto retornei na médica que me encaminhou
pra um hospital onde pudesse fazer o procedimento, a principio simples. Só que
o meu plano não cobria o hospital. Mandei mensagem pra ela pedindo outra
indicação, ela prontamente visualizou a mensagem e até hoje não respondeu.
Até
organizar os sentimentos e buscar um novo caminho, o tempo não parou. Perdi o
plano de saúde do trabalho e na clínica da família fui buscar um encaminhamento
pro INCA. Me mandaram pra um hospital dizendo que o chefe da equipe médica é o
melhor do Rio de Janeiro, que eu estaria em ótimas mãos. Quando liguei pra
tentar adiantar a consulta, num encaixe, me disseram que eu estava agendada pra
fazer um exame e que se eu já tivesse o diagnóstico de câncer, eles nada
poderiam fazer, que eu tinha que ir para o INCA mesmo. Retornei pra clínica da
família sem chão. A cada cólica comum do ciclo menstrual a cabeça vai longe
achando que o câncer já tomou o corpo todo. É desesperador não saber o que está
acontecendo em você.
Recebi
o aviso da data de ida ao INCA um dia antes. Lá, me informaram sobre o câncer,
como ele age e que eu poderia talvez não engravidar mais, mas que tudo só seria
possível de confirmar reavaliando o exame feito, então me avisaram que eu tinha
que ter as lâminas da minha biópsia em mãos, senão nem poderiam abrir meu
prontuário. Mas o laboratório só autoriza a liberação com pedido do meu médico:
aquela médica que não respondeu a mensagem. Consegui o pedido com um médico do
INCA e no mesmo dia fui ao laboratório. Mais uma semana pra liberar.
Quando
voltei com tudo certo finalmente fui examinada de novo, mais de 6 meses depois
do preventivo que acusou a alteração. Não basta dois, três médicos olhando suas
profundezas, ainda tem o toque retal de cada um deles. Mas nada é rápido: a
fila de espera com mulheres tão amarguradas quanto você e com casos ainda piores
leva a uma incerteza profunda sobre a maternidade. Eu só chorava. Meu marido estava por perto,
mas não podia ficar comigo o tempo todo, já que um homem pode gerar desconforto
nas mulheres cobertas apenas com o avental hospitalar. A orientação nesta
consulta foi de fazer uma cirurgia que retiraria meu colo e uma parte do útero,
o que poderia dificultar uma gravidez, mas não a impedir. Incisão pela barriga,
do umbigo até o púbis. E abstinência sexual pra não me machucar. Encaminhamento
para vários exames, agendados só para o mês seguinte. Sobre uma possível
prioridade na fila: “aqui todo mundo tem câncer. Todo mundo é prioridade”.
Nesse
tempo o medo me consumiu. Não de morrer pelo câncer, já que se estivesse
avançado, tirariam tudo e eu permaneceria viva. Mas medo de não poder
engravidar, de não voltar da anestesia, da cicatriz que ficaria na minha
barriga eternamente me lembrando de tudo. Quantas e quantas noites sem dormir,
chorando, buscando em vão me apegar em algo. Ainda perdi minha gata Bella, sem
nem ter tido tempo de superar a perda da Maria Rita. Tive que dar conta da
faculdade e das provas finais da pós-graduação. Tive que lidar com a ausência
de alguns amigos e outros dizendo que “qualquer coisa você adota”. Tive que
lidar com a negação inicial dos meus pais e depois o questionamento do porquê
ainda não tinha resolvido. Tive que lidar com a esperança de uma barriga
solidária pra gerar um filho meu, mas também com a frustração de não ter a
mínima condição financeira de congelar óvulos e fazer a fertilização in vitro.
Após
exames feitos, veio a mesa redonda: quando a equipe médica se junta pra
resolver sua vida. Dia 14 de junho. Finalmente um pouco de alívio! Até parabéns
eu recebi por fazer o preventivo com regularidade e assim descobrir o câncer no
início. Eu iria fazer a conização e manter minha fertilidade. Um procedimento
simples via vaginal, em ambulatório, sem internação, com anestesia local. E
poderia ter vida normal até este dia, precisando da abstinência somente no
pós-operatório. Parecia até um sonho. Esperança. “Vamos te encaminhar pro
Hospital da Mulher, você fará com o médico que era o chefe aqui do INCA, lá a
fila pra esse procedimento é menor e você vai resolver mais rápido. Vamos
deixar o encaminhamento pro seu retorno em 60 dias, já com o resultado de
tudo”.
Com 60
dias ainda não tinha nem a data que iria fazer o procedimento. Foi marcado para
o dia 21 de agosto, 68 dias depois. No dia da consulta o médico se apresenta
como Dr. Virgilio, 30 anos como diretor do INCA e agora responsável pelo
Hospital Mariska Ribeiro, em Bangu. Atencioso, me explicou que o meu caso era
de um câncer do tipo invasivo, e que no exame in loco confirmaria. De novo, eu só
chorava, agarrei no braço do meu marido enquanto o médico mostrava as lesões no
colo do meu útero pela tv. Pela primeira vez eu vi o que tanto me amedrontava.
E então o veredito: não dá pra fazer aqui, agora. Segundo o médico, embora o
câncer fosse invasivo ainda estava em estado inicial, mas já se estendia de uma
maneira que era mais seguro fazer o procedimento com anestesia geral, em centro
cirúrgico. Me pediu um eletrocardiograma, um risco cirúrgico assinado por um
cardiologista e que eu parasse de chorar, senão me daria uma chupeta e uma
mamadeira na semana seguinte, quando voltasse. Eu disse que ficariam pro
enxoval do bebê que ele ainda me deixaria ter. Ele lamentou que eu estivesse
nessa novela por tanto tempo, mas que ele tinha acabado de me conhecer e
precisava garantir que tudo fosse o mais seguro possível.
A essa
altura o seguro desemprego já tinha acabado, o auxilio doença não tinha sido
pedido ainda, e com as contas apertadas, estávamos descobrindo um santo para
cobrir outro, literalmente. De onde tirar dinheiro para fazer mais esse exame?
Foi quando lembrei que eu já tinha feito o eletro no INCA e corri pra lá pra
pelo menos ter o exame em mãos e pagar somente a consulta com um cardiologista.
Primeiro o pessoal do arquivo não pode liberar sem autorização do médico, eu
tinha que pedir no ambulatório de ginecologia. No ambulatório disseram que o
exame fica no arquivo e me mandaram pra diretoria, que lá eu conseguiria a
liberação. Voltei no arquivo e me deram uma cópia do eletro. Lá me sugeriram conseguir
cópia da chapa do tórax no raio-x, onde só consegui o laudo, porque o
computador que faz a cópia em CD não estava funcionando. Com tudo em mãos, por
desencargo, procurei saber pra quando conseguiria marcar o risco cirúrgico por
lá. Somente pro dia 03 de outubro. Pra um encaixe, “só no setor de oncologia”. Com
o não garantido, fui tentar um sim e encontrei um anjo que viu a assinatura do
ex chefe dela e entendeu meu desespero de ser empurrada pra lá e pra cá e falou
que precisava que o pedido médico fosse do próprio INCA pra ela conseguir me
ajudar. E falou pra eu voltar no ambulatório pra conseguir esse papel. As
recepcionistas e enfermeiras não entendem o que você precisa. É difícil
explicar o jogo de empurra, mas me encaixaram pra conversar com um médico. Lá
ele entendeu: “uma coisa tão simples e complicam tanto”. Um papel, um carimbo e
uma assinatura. Com isso a anja Patrícia conseguiu que o cardiologista me
atendesse, se eu pudesse esperar. Nem demorou muito e o Dr Gustavo me atendeu,
fez o meu risco cirúrgico e ainda me deu o eletro original do meu prontuário.
Incrível como um CRM tem um poder tão simples, mas decisivo.
Na
semana seguinte eu estava de volta no Hospital da Mulher, mas Dr Virgilio
estava em cirurgia e havia adiado as consultas daquele dia pra semana seguinte,
eu não tinha como falar com ele. E nem tinha sido avisada da sua ausência no
consultorio, porque ele disse que não precisava marcar consulta, era só voltar
e procura-lo direto. Alguns instantes pra reorganizar os pensamentos e tentar
uma nova estratégia. Eu estou com tantos “nãos” da vida que já não tenho muito
o que perder e parti em busca de cada sim que me levasse a resolver mais esse
impasse. Fui ate a recepcionista que conseguiu autorização de uma enfermeira
pra eu fosse até o andar do centro cirúrgico mostrar meu exame para o Dr. Feito
isso ela me encaminhou pra direção onde marca as cirurgias e me colocou no
sistema – mas pra janeiro. Disse que o próprio Dr Virgilio me anteciparia e ele
me ligaria com a data. E me mandou pra outro setor com meus exames para abrir o
prontuário. Tudo feito, tudo quase resolvido.
No dia seguinte volto no INCA, mas sem novela,
já estava marcada. Precisava do laudo pra perícia do INSS pra dar entrada no
meu auxílio doença. - Como você está,
perguntou o médico.
-
De saco cheio disso
-
Num desanima, não. Vai dar tudo certo!
-
E eu tenho outra opção?
No
dia da pericia cheguei cedo e não demorou muito pra ser atendida. Mas o que eu
já suspeitava se confirmou logo depois. Primeiro a médica disse que era
provável que não fosse aceito o pedido antes da cirurgia, mas que eu poderia
solicitar novamente depois. Sai sem esperança e no dia seguinte a confirmação
que eu não teria direito ao auxilio. São tantos golpes pelo país, de gente que
não tem nada e recebe até mais do que um e eu... bom, meu câncer não é
incapacitante, mas me restringe emocionalmente e impossibilita assumir um
compromisso profissional sem saber quando e em quais condições vou me ausentar
pra cirurgia. Enquanto isso, tenho que me virar...
No
mesmo dia, voltando da perícia ainda no ônibus recebi a ligação do hospital,
marcando minha cirurgia pra semana seguinte.
Então
começa a contagem regressiva para o fim da tortura, mas ao mesmo tempo quanto
mais se aproximava, mais medo dava.
Medo
da anestesia, do câncer ter avançado, de adiarem novamente porque minha
menstruação estava pra chegar próximo ao dia marcado...
Então
chegou o dia. Dormi mal, madrugamos meu marido e eu. Chegamos em Bangu 5:38.
Aguardamos. Por volta de 6:40 me encaminharam para o quarto, junto de mais duas
mulheres. Lá perambulei nervosa pelo quarto até os médicos chegarem pra tirar
dúvidas. Fiz mil perguntas. Tantas que nem sei mais. A enfermeira colocou o
acesso no meu braço. A camisola chegou, me troquei e fui para sala de cirurgia,
8:30 começou o procedimento. Dr Virgilio conversava sobre aposentadoria com o
anestesista enquanto um terceiro me preparava com aparelho de pressão,
eletrodos e todos os apetrechos necessários. Em questão de segundos senti a
droga fazendo efeito e apaguei. Acordei já na sala de recuperação, às 10h já
estava no quarto avisando meu marido que tudo enfim tinha terminado.
As
11h devorei um prato de comida, ele já estava comigo. Muitos xixis de tanta
bolsa de soro. Um cochilo enquanto ele foi almoçar e então Dr voltou pra avisar
que tudo tinha corrido bem, que tinha tirado toda a lesão e explicar sobre o
pós-operatório. Acabou. Eu estava tratada. Sem câncer. E vou poder gerar um
filho. 15h tive alta e vim dormir em casa, com meu marido e minhas gatas. Nada
é tão reconfortante quanto ter certeza do presente e esperança de futuro.
Não
sinto dores. Só um incomodo que poder ser da cirurgia como pode ser da
menstruação que está pra chegar. Não consigo ficar em pé ou sentada muito
tempo, incomoda um pouco mais. Tirar a gaze de uns 50cm de dentro do útero foi
bem aflitivo, principalmente porque parece que grudou num sangue seco. Deu medo
de puxar e doer e sangrar. Achei de fosse desmaiar por duas vezes. Mas com
bastante perseverança e choro de nervoso consegui tirar a tripa de dentro de
mim. Retorno em 40 dias pra ver como tudo vai estar.
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